Nascemos e morremos. Existe no meio o que chamamos de viver. Rimos, choramos, fazemos e coçamo-los. Sim, os tomates. Preguiçamos, amamos, odiamos, e tudo o mais. No fim todos deixamos de ver, sentir e respirar. É o fim. Será? Procuramos o consolo desta suposta tristeza julgando falar com a pessoa que já se encontra para lá deste mundo. Porque ela ainda respira, dentro de cada um que tocou, cada coração e mente. Só nos entristecemos por não a mais podermos ouvir a sua voz, ter o seu toque, e tudo o mais. Porque, de resto, a pessoa ainda lá está. Vivemos com o sentimento que somos imortais. Que podemos enganar a Morte. Ou atrasá-la. Mas ela é que nos atrasa, até quando ela bem o entender. Temos esperança. Suponho que antes de morrermos, temos o vislumbre da gadanha dela a brilhar, pronta a ceifar-nos. Porque eu a vi, e não foi nos meus olhos. Foi nas dos meus queridos, e nas dos queridos de muita gente. Que cruel e libertadora atitude.
Se não houvesse uma réstia de céu no meio destas nuvens carregadas, talvez pudesse alegrar-me. Se chovesse, e os pingos me batessem fortes como um castigo, talvez me sentisse confessada. Se o vento sussurrasse os meus pecados, nem padres aguentariam tanto pai-nosso, avé-maria, ou a minha total expurgação. Se. Existe calor. Sufoca-me. O mal dos meus pecados é perdoado. Suo, tremo, respiro mais rápido. Sabem que quero voltar a pecar. Sabem mesmo. Que a minha vontade, a minha raiva, seria saciada se eu assim o quisesse. Mas não me deixam. E volta a haver frio. Estou gelada. Confesso a Deus Todo-Poderoso e a vós irmãos que pequei muitas vezes por pensamentos e palavras actos e omissões por minha culpa minha tão grande culpa E peço á Virgem Maria Anjos e Santos e a vós irmãos que rogueis por mim a Deus Nosso Senhor. E é este o meu calvário de todos os dias. Antes de poder pecar. Mas todos sabem que por mais perdão e orações que faça, a quantidade de vezes que pequei é sempre superior. Meu castigo é viver.