Quantos me vêem?

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Pecados.




Se não houvesse uma réstia de céu no meio destas nuvens carregadas, talvez pudesse alegrar-me.
Se chovesse, e os pingos me batessem fortes como um castigo, talvez me sentisse confessada.
Se o vento sussurrasse os meus pecados, nem padres aguentariam tanto pai-nosso, avé-maria, ou a minha total expurgação.
Se.

Existe calor. Sufoca-me.
O mal dos meus pecados é perdoado.
Suo, tremo, respiro mais rápido. Sabem que quero voltar a pecar.
Sabem mesmo. Que a minha vontade, a minha raiva, seria saciada se eu assim o quisesse.
Mas não me deixam.
E volta a haver frio. Estou gelada.

Confesso
a Deus Todo-Poderoso
e a vós
irmãos
que pequei muitas vezes
por pensamentos e palavras
actos e omissões
por minha culpa
minha tão grande culpa
E peço á Virgem Maria
Anjos e Santos
e a vós
irmãos
que rogueis por mim
a Deus
Nosso Senhor.

E é este o meu calvário de todos os dias. Antes de poder pecar.
Mas todos sabem que por mais perdão e orações que faça, a quantidade de vezes que pequei é sempre superior.
Meu castigo é viver.


domingo, 26 de maio de 2013

Queima. Arde. Apaga-te.




Vi, na minha secretária, duas cartas endereçadas a mim.
Cartas que se intitulavam ser de amor. Tudo o que lhes via era ódio.
Cartas escritas a lápis. Um ultraje para uma carta de amor.
Porque o que é eterno deve ser escrito a papel com caneta.

Antes lia-as com um gosto sereno, porque o verdadeiro amor, do rapaz de me as endereçou e que dizia amar-me assim, não me tocou.
Agora leio-as com raiva. Com a raiva de quem reconhece uma relação falhada e sem futuro.
8 meses de pura brincadeira.

Não as quis ler mais. Não as quis vivas.
Na noite anterior, o fogo tomou conta dessas cartas, negando totalmente a sua existência.
O fumo e o passado dessas cartas intoxicou-me uma última vez.
Queimado o papel mas persistindo o fogo, a água fria trata de apagar todos os vestígios.

Qual simbolismo este, cujas cartas foram, na sua maioria, queimadas ás mãos daquele que detém agora o amor verdadeiro que antes dele não tive. Uma coisa não dá lugar a outra, mas dá um novo lugar, uma nova história. Uma nova vida.

Esta nova vida nasce, agora cresce saudável. Quando morrer, que eu morra com ela.