Se não houvesse uma réstia de céu no meio destas nuvens carregadas, talvez pudesse alegrar-me. Se chovesse, e os pingos me batessem fortes como um castigo, talvez me sentisse confessada. Se o vento sussurrasse os meus pecados, nem padres aguentariam tanto pai-nosso, avé-maria, ou a minha total expurgação. Se. Existe calor. Sufoca-me. O mal dos meus pecados é perdoado. Suo, tremo, respiro mais rápido. Sabem que quero voltar a pecar. Sabem mesmo. Que a minha vontade, a minha raiva, seria saciada se eu assim o quisesse. Mas não me deixam. E volta a haver frio. Estou gelada. Confesso a Deus Todo-Poderoso e a vós irmãos que pequei muitas vezes por pensamentos e palavras actos e omissões por minha culpa minha tão grande culpa E peço á Virgem Maria Anjos e Santos e a vós irmãos que rogueis por mim a Deus Nosso Senhor. E é este o meu calvário de todos os dias. Antes de poder pecar. Mas todos sabem que por mais perdão e orações que faça, a quantidade de vezes que pequei é sempre superior. Meu castigo é viver.
Vi, na minha secretária, duas cartas endereçadas a mim. Cartas que se intitulavam ser de amor. Tudo o que lhes via era ódio. Cartas escritas a lápis. Um ultraje para uma carta de amor. Porque o que é eterno deve ser escrito a papel com caneta. Antes lia-as com um gosto sereno, porque o verdadeiro amor, do rapaz de me as endereçou e que dizia amar-me assim, não me tocou. Agora leio-as com raiva. Com a raiva de quem reconhece uma relação falhada e sem futuro. 8 meses de pura brincadeira. Não as quis ler mais. Não as quis vivas. Na noite anterior, o fogo tomou conta dessas cartas, negando totalmente a sua existência. O fumo e o passado dessas cartas intoxicou-me uma última vez. Queimado o papel mas persistindo o fogo, a água fria trata de apagar todos os vestígios. Qual simbolismo este, cujas cartas foram, na sua maioria, queimadas ás mãos daquele que detém agora o amor verdadeiro que antes dele não tive. Uma coisa não dá lugar a outra, mas dá um novo lugar, uma nova história. Uma nova vida. Esta nova vida nasce, agora cresce saudável. Quando morrer, que eu morra com ela.