Quantos me vêem?

quinta-feira, 25 de junho de 2015

O Encanto das Coisas Únicas


Levantou-se, desligando o despertador com raiva.
Pegou numa taça, deitou cereais e leite, e mastigou ruidosamente.
Tinha o cabelo despenteado, arrastava os pés e resmungava por ter acordado.
Mal tinha os olhos abertos, ainda com uma cara sonolenta.
E mesmo assim, com estes madrugares dela, ele achava-a cada vez mais bela.

Ela era tão distraída de manhã, e isso era encantador.
Ria-se de quando ela calçava um ténis diferente do outro, a t-shirt ao contrário, e quando ela se vestia sem roupa interior.
Ele dizia-lhe "podes muito bem ir assim, eu cá gosto e agradeço", e ela atirava-lhe com os ténis diferentes que calçara enquanto ele se ria dela como um perdido.
Ela, para lhe retribuir, metia sal no café dele e ria-se à gargalhada quando ele cuspia o café todo e da cara dele de espanto. E ele ria-se com ela.



(Texto a continuar e finalizar.)

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Rapariguinha Estúpida



Ela viu as costas dele.
A afastar-se, longe, mais longe.
Era um dia de Verão, quente e abafado. Mas ela sentia frio.
Nos ossos, na pele, em tudo. Gelo.
Queria poder gritar o nome dele, mas apenas conseguiu abrir a boca. Nenhum som.
Queria poder correr, abraçar, mexer-se, no entanto estava paralisada.
Caíram-lhe uma, duas lágrimas, e depois foi como um rio, sem parar.
Eram lágrimas frias, gelavam-lhe o rosto e o peito.
E não podia fazer nada porque a culpa era dela.

Culpou-se por tudo o que fez e o que não fez.
Pelo que disse e o que não disse.
Por ter sido covarde.
Sabia bem o que era preciso para serem felizes. Amar, cuidar, proteger.
Fez tudo ao contrário. Duvidou dela mesma, tinha medo, não arriscou e a frustração sobre ela mesma tomou conta.
Por estupidez e medo deitou tudo a perder.
E ele tinha todo o direito de ir e ser realmente feliz. Era o que ela desejava.
Lamentava-se que não seria com ela. Lamentara-se que nada antes deu certo com ela.
Lamentara-se que tudo, desde o passado até hoje, fora culpa dela.

A esperança morrera-lhe. Sabia que não voltava, que nada iria voltar.
Todos o tinham feito antes, este não lhe seria diferente, pensara.
Teve o seu momento de lamento e perda, as saudades vieram e magoaram.
E depois aceitou. Levantou-se debilmente das ruínas.
Perdi-o.

Ainda tinha viva na memória as costas dele.
A dor e saudade ainda não passara. Mas aceitava, como se carregar uma cruz fosse rotina.

E um dia, não lhe viu as costas, mas sim o rosto.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Metamorfose


Esqueçam tudo o que está antes deste texto.
Se desejam saciar a vossa curiosidade, força, não impeço.
Mas isto é diferente.

Venho falar-vos de alguém que se ausentou da realidade, se esqueceu dela, e que sofreu na ignorãncia. Um alguém que se tornou pátetica. Esse mesmo alguém que agora, depois de aguentar as consequências dos seus actos estúpidos e ignorantes, jurou nunca mais passar por tal tormento. E que novamente se prepara para lutar.

A metamorfose acontece a todo o ser.
E a metamorfose humana, creio ser a mais bela e eufórica.
Mas tal coisa pode ir para um lado negativo.
Creio que dizer "foi pura estupidez" é a explicação mais correcta para uma metamorfose ter efeito negativo. Porque se o objectivo dela é ser algo novo e melhor, só com estupidez se altera uma coisa assim. Aparentemente somos o único ser que consegue fazer tal proeza.
Quando o efeito é negativo, a estupidez personifica-se no ser em questão.
Fisa-se pateta, faz-se patetices, diz-se coisas estúpidas sem lógica e sem o mínimo de inteligência, é-se ignorante e é-se feliz nessa ignorância. A estupidez pega-se como uma doença e devia ser considerada tal. (Venham lá dizer-me que estou a exagerar, ou não entendem sarcasmo virtual?).
Basta um ficar (ou ser, alguns nascem assim. É triste.) estúpido e o resto acompanha essa estupidez alegre, e é tudo estúpido e viv'á estupidez!
As consequências são devastadoras.
Quando se acorda para a realidade e se apercebe que fomos estúpidos, levamos com a realidade em cima e não há tempo de preparar um fato bonito para a ocasião. Simplesmente leva-se um abre-olhos tão, mas tão grande, que nos apetece enterrar bem abaixo no chão tal é a vergonha. É como acordar de um sonho lúcido e perceber que andámos como sonâmbulos e ao acordar ficamos incréludos de que aquilo foi autoria da nossa estupidez.

Mas (há sempre um "mas", que emgraçado...), para quem for perspicaz e inteligente para o fazer, consegue voltar a metamorfosear-se para um lado positivo. Chamo-lhe o "efeito arco e flecha", uma metáfora em que a seta nos personifica, e que para chegar a um objectivo e de forma rápida, temos de ser puxados para trás um pouco para dar incentivo e balanço e nos projectarmos a diante.
Quando isso ocorre, acordamos e ficamos como que curados da estupidez e estamos a levar em cima com a relaidade. O que fazer nessa situação? Lutar.
Remediar o mal feito, e ao acabar jurar não mais voltar a cometer tal erro.
Mas não é fácil.
Perde-se um pouco de quem éramos na nossa estupidez. E tanto se recupera, como quem vai mais além e se melhora. É aí que a metamorfose se torna bela.
Voltamos a ser quem éramos, e a história acaba aqui, ou melhoramos quem somos, e isso é a metamorfose na sua plena e bela forma.
Existe determinação, acordamos, declaramos guerra a quem nos quiser voltar a por naquela situação, somos nós mesmos e quem não gostar que se vá embora. Somos nós novamente, e de nova forma.

Prefiro acreditar no "efeito arco e flecha", onde aceito que o negativo é necessário para fomentar o positivo e pensar que os efeitos do negativo não foram em vão. Uso o conhecimento, doloroso ou não, a meu favor. E, tal como um copo cheio de água suja a necessitar de nova água, deito fora tudo o que conhecia antes e preparo espaço para novo conhecimento.
Em suma, metamorfoseio-me.

Estou de volta.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Vive e Deixa Morrer


Rapariguinha estúpida.
Sempre a errar no mesmo.

Não sei como não enjoei.
Andar de carro lembra-me sempre do sabor do que comi umas horas antes. Mas com ácido.
Este caso foi excepção e não entendo porquê.
A longa e interessante conversa? A companhia? O porquê e o destino de onde vou?
Ou tudo isto?

Pedi para parar na praia que ali estava.
De noite, a Lua reflectia a luz no mar. O cheiro a maresia, o frio, a escuridão e apenas aquela luz, como um guia. Que euforia!
Amei tanto o que via que quis aproveitar todo o seu esplendor em mim.
Rebolei na areia perante aquele homem estupefacto, que se ria e me dizia o quão maluca era.
 - Alguma vez quiseste soltar a tua dor gritando, e não podias? - perguntei-lhe.
 - Porque queres saber?
 - Se eu gritar aqui, alguém me ouve?
 - Não, mas não o vais--
AAAAAAAH!
Gritei todas as minhas dores e angústias ali. Gritei até me querer faltar a voz.
Estavas com um ar assustado. Agora quem se ria era eu.
 - Grita! Sê livre e faz o que te der na real gana!
E tu gritaste o que tinhas aí dentro. Gritámos ambos, e eu quase à beira das lágrimas.
Não, não estava triste. Pelo contrário, sentia-me viva. E isso era algo do qual tinha saudades.
Tirei a roupa e fiquei apenas em roupa interior.
 - Vais apanhar uma constipação. Veste-te.
Quero lá saber. Há outras formas de nos sentirmos vivos, e eu só conseguia assim.
Mergulhei naquele mar onde breu e luz batalhavam.
O frio acalmava-me o corpo. Apenas no frio me pude sentir confortável.
O mesmo frio que durante anos habitou em mim, e que agora escondo na esperança de encontrar calor.
A escuridão enchia-me os olhos. Não via nem queria ver.
Ignorante ao que estava em meu redor.
Nem te procurei. Não te chamei para mim, tu lá sabes o que queres fazer.
Mas eu, eu sou livre.
Rapariga livre.

Deitei-me na areia, ofegante de tanto gritar e nadar.
Tu ficaste acanhado. Nem ai nem ui, quiseste apenas ficar quieto.
Na escuridão do céu distinguiam-se algumas estrelas.
Imponentes, a anos-luz de mim, a brilharem e eu sem poder alcançá-las.
Queria chorar ao ver tanta beleza em breu e frio.


Por enquanto este texto vai estar interrompido. Não encontro inspiração para o acabar.

Lamento.

domingo, 9 de março de 2014

Bagagens.



A mãe andorinha empurra o seu filho fora do ninho para voar.
O pai lobo empurra o seu filho fora da alcateia para se tornar um alfa.
Os pais humanos deixam nos seus filhos a responsabilidade de se ser independente.
E, para mim, chegou a hora.

Tomo agora mais responsabilidades das que tinha quando tinha os meus 16 anos.
Agora sustento um pequeno quarto, com o suor do meu trabalho, e faço a minha comida, pago as minhas contas, trato dos meus assuntos financeiros, sociais, enfim, iniciante vida de adulto.
Dizem que lá fora a vida é madrasta. Ela tentou lixar-me desde o primeiro minuto, mas eu dei-lhe a volta.
Muitos consideram que é injusto os pais fazerem tal coisa e fazem birras para não sair de casa e não assumir as responsabilidades.
Já eu peguei na minha bagagem e fui. Enfrentei o que algum dia teria de enfrentar. A maturidade ninguém a dá de bandeja, ou aprendemos a tê-la levando bons socos ou permanecemos covardes.

A eles agradeço. Estava na minha hora.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Má Mentirosa, Grande Traidora.


O vento soprava quase como um murmúrio.
Segredava algo aos meus ouvidos. Como um prenúncio.
Receei que tal prenúncio chegasse aos ouvidos errados.
Espero. Passará da hora combinada?

Ei-lo.
- Olá.
Um beijo leve nos seus lábios.
- Olá fofo. Como foi o teu dia?
E, após esta pergunta, chovem quase sempre desabafos sobre o trabalho, coisas sobre o que ele faz das quais não entendo, e reuniões com tais pessoas importantes que para mim não passam de meras pessoas.
- E o teu dia?
- Normal.
A minha habitual resposta. Para não falar das emoções sentidas quando faço aquelas coisas com...
- Vamos jantar fora?
- Er... sim, porque não?
Não. Porque hoje era a minha noite.
Inventaria uma desculpa qualquer para sair desta situação, tudo para estar com...
- Onde queres ir?
- Tu é que sabes, fofo.
Farta desta mentira. Não o suporto. Um dia terei de revelar, sim.
Mas é tão excitante fazer isto assim, fugir para ter com...
- Mas, primeiro, quero algo.
- O quê?
- A ti.
Oh, não. De novo terei de fingir os gemidos. Nem tenho prazer nenhum com ele. Terei de novo que pensar em como me sinto nas coisas que faço com...
- Hoje não me sinto com disposição, amor. Fica para outra altura, sim?
- Está bem.
Desta me safei.

Fomos jantar.
O telefone toca, antes mesmo de tocar na sobremesa. Uma mensagem.
"Estou à tua espera fofa."
Respondo:
"Estou a tentar livrar-me do traste do meu marido."
"Pena. Ficarei à tua espera. Rápido, quero-te."
- Fofo, não vou poder acabar o jantar. Chamam-me do trabalho, reunião de emergência.
A desculpa mais esfarrapada de sempre.
- Oh. Estava a gostar tanto... Tens ideia de que se trata essa reunião?
- Er... Não sei. Ninguém sabe. Adeus.

A minha excitação sobe, e acelero na estrada.
Chego rapidamente ao meu destino. A sua casa.
- Então, só agora?
- Demorei?
- Não, sua tola. Entra.
Entrámos aos beijos. O fogo entre nós não parava de arder.
Roupas pelo chão, corpos nus numa cama onde celebrávamos assim a atracção que sentíamos.

O meu receio realizou-se. O prenúncio chegou aos ouvidos errados.
O meu marido desconfiou da forma suspeita com que saí no nosso jantar.
De tão focada que estava em chegar ao meu destino, mal reparei que ele me seguia.
Estranhou ter parado à porta de um prédio e não do meu trabalho.
Escutando atrás da porta do apartamento, ouviu o que não devia ouvir.
Arrombou a porta. Julguei-me condenada.
Ao ver o cenário em que nos encontrávamos, ficou chocado.
- Estás a trair-me... com uma gaja?
- Estou.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O Funeral de Uma Alma


Sabem como se faz um funeral de uma alma?
Aliás, sabem sequer como é que uma alma morre?

Não, o corpo não precisa de morrer.
Esse ainda respira, come, fala, fode, lê, escreve.
Mas a alma, essa morre. E quase ninguém dá por isso.

A morte de uma alma é lenta e dolorosa.
Definha com tanta crítica, gozo, dor, ciúme, traição e humilhação durante anos e anos.
E morre.
O corpo já não tem mais o brilho da vida nos olhos, nem a vivacidade nos seus actos.
A alma está enterrada, lá no profundo do ser.
E a culpa é de todos.


Ninguém quer saber.


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

As Duas Horríveis Faces da Mesma Humana

 


Existem dois "eus".

Um deles é psicopata.
Adora fazer os outros sofrer, e ignora os seus pedidos de socorro.
É cruel, egoísta, e tem prazer nisso.
O seu objectivo é viver.
Mantém viva a sua carapaça, ou seja, o meu corpo e a minha sanidade mental.

O outro é pior.
É um agente do Bem, faz boas acções e é simpática com todos.
Defende a Justiça, pune os criminosos, e dá o seu melhor para ser o exemplo.
O seu objectivo é sobreviver.
Quer manter viva a ideia de que sou uma pessoa alegre, altruísta e despida de pecados.


Raras são as vezes em que ambos se encontram e lutam entre si.
Mas, quando lutam, conseguem adivinhar quem ganha?

domingo, 18 de agosto de 2013

"Obrigado!"

"Obrigado por me salvares".
Bastou-me aparecer, e salvei.

Cada soluçar dele corta-me profundamente o peito.
Os seus abraços fortes e desesperantes prendem-me. O ar foge-me.
Entendo a necessidade. Entendo a urgência.
E felicito-me por ser eu quem ali está.
Socorro-o estando apenas junto a ele.
E ele regressa à vida uma, e outra, e outra, e outra vez.

Fui-lhe cruel.
Má e insensível.
Disse palavras feias, levantei a mão mais que uma vez.
Por erros dele e do seu passado.
Perdoa-me.

Passámos por ondas e tormentas que podiam ter virado o barco.
Superámos problemas que podiam ter acabado a relação.
Ainda aqui estamos. E continuaremos a estar.

Bons momentos passámos, e repetimos
Ruins memórias e pessoas ousaram, não conseguiram, destruir.
Uma nova vida, a dois, conquistaremos
Novos desafios virão
Onde eu e tu os ultrapassaremos.

Não sou de ferro.
Tal como tu, amor, tens as tuas fraquezas, eu tenho as minhas.
Procuras-me como refúgio desses teus gemidos profundos.
Eles que ecoem. Que derrubem os provocadores de tais barbaridades.
Já os meus, em ti, transformam-se em gargalhadas.
Da felicidade que partilho contigo.

Aqui estou.
Daqui não sairei.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Uma Nova Vida Não Significa Melhor.



Acabei o Secundário.
Trabalho agora a servir clientes ás mesas.
E de ambas as experiências não sei qual delas a pior.

Na escola era uma excluída.
E agora aqui sinto ainda mais o ser.

Vejo jovens como eu com uma vida fantástica aos meus olhos. Falam com os amigos sobre os amigos, a faculdade, o emprego, e tudo o mais. Tomam um café, e esse café une-os. Acima de tudo, têm amigos com quem tomar um café.
E eu sou a simples empregada que lhes serve.

Passo as tardes no meu estabelecimento a olhar para as pessoas que passam na rua.
Parecem felizes. Estão juntos, riem, brincam, tudo.
Os meus dias são a servir clientes. Uns mais estúpidos que outros. E louvo todos os clientes simpáticos que atendi. Aqueles que em momentos de reflexão interior sobre a minha desgraça, conseguiam arrancar-me uma gargalhada e devolver-me por segundos o suspiro débil que ainda devo ter dentro de mim.

Invejo e felicito todos aqueles que com a minha idade ou pouco mais conseguiram alcançar mais e melhor do que eu.
Espero também conseguir. Oxalá seja capaz.

No fundo, o motivo que leva as pessoas a trabalhar é nada mais que o salário.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

( I )Mortal.


Nascemos e morremos.
Existe no meio o que chamamos de viver.
Rimos, choramos, fazemos e coçamo-los. Sim, os tomates.
Preguiçamos, amamos, odiamos, e tudo o mais.
No fim todos deixamos de ver, sentir e respirar. É o fim.
Será?

Procuramos o consolo desta suposta tristeza julgando falar com a pessoa que já se encontra para lá deste mundo.
Porque ela ainda respira, dentro de cada um que tocou, cada coração e mente.
Só nos entristecemos por não a mais podermos ouvir a sua voz, ter o seu toque, e tudo o mais.
Porque, de resto, a pessoa ainda lá está.

Vivemos com o sentimento que somos imortais. Que podemos enganar a Morte.
Ou atrasá-la. Mas ela é que nos atrasa, até quando ela bem o entender.
Temos esperança.

Suponho que antes de morrermos, temos o vislumbre da gadanha dela a brilhar, pronta a ceifar-nos.
Porque eu a vi, e não foi nos meus olhos. Foi nas dos meus queridos, e nas dos queridos de muita gente.

Que cruel e libertadora atitude.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Pecados.




Se não houvesse uma réstia de céu no meio destas nuvens carregadas, talvez pudesse alegrar-me.
Se chovesse, e os pingos me batessem fortes como um castigo, talvez me sentisse confessada.
Se o vento sussurrasse os meus pecados, nem padres aguentariam tanto pai-nosso, avé-maria, ou a minha total expurgação.
Se.

Existe calor. Sufoca-me.
O mal dos meus pecados é perdoado.
Suo, tremo, respiro mais rápido. Sabem que quero voltar a pecar.
Sabem mesmo. Que a minha vontade, a minha raiva, seria saciada se eu assim o quisesse.
Mas não me deixam.
E volta a haver frio. Estou gelada.

Confesso
a Deus Todo-Poderoso
e a vós
irmãos
que pequei muitas vezes
por pensamentos e palavras
actos e omissões
por minha culpa
minha tão grande culpa
E peço á Virgem Maria
Anjos e Santos
e a vós
irmãos
que rogueis por mim
a Deus
Nosso Senhor.

E é este o meu calvário de todos os dias. Antes de poder pecar.
Mas todos sabem que por mais perdão e orações que faça, a quantidade de vezes que pequei é sempre superior.
Meu castigo é viver.


domingo, 26 de maio de 2013

Queima. Arde. Apaga-te.




Vi, na minha secretária, duas cartas endereçadas a mim.
Cartas que se intitulavam ser de amor. Tudo o que lhes via era ódio.
Cartas escritas a lápis. Um ultraje para uma carta de amor.
Porque o que é eterno deve ser escrito a papel com caneta.

Antes lia-as com um gosto sereno, porque o verdadeiro amor, do rapaz de me as endereçou e que dizia amar-me assim, não me tocou.
Agora leio-as com raiva. Com a raiva de quem reconhece uma relação falhada e sem futuro.
8 meses de pura brincadeira.

Não as quis ler mais. Não as quis vivas.
Na noite anterior, o fogo tomou conta dessas cartas, negando totalmente a sua existência.
O fumo e o passado dessas cartas intoxicou-me uma última vez.
Queimado o papel mas persistindo o fogo, a água fria trata de apagar todos os vestígios.

Qual simbolismo este, cujas cartas foram, na sua maioria, queimadas ás mãos daquele que detém agora o amor verdadeiro que antes dele não tive. Uma coisa não dá lugar a outra, mas dá um novo lugar, uma nova história. Uma nova vida.

Esta nova vida nasce, agora cresce saudável. Quando morrer, que eu morra com ela.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Gemidos


A boca não se mexe. Os olhos falam.




É simples dizer que se pode abrir a boca e soltar um gemido. Mas fazê-lo? Não.
Todos me ouvirão. Alguém perceberá a causa?
O que faz com que um gemido seja um gemido é que haja alguém que o solte e alguém que o oiça.
Tanta gente a querer soltá-los e ninguém a querer ouvi-los...

É agoniante.
Um desequilíbrio assim e o Inferno passa a ser na Terra e não debaixo dele.
Se não é que já o seja.

Pobres almas a gemerem pela sua salvação... e ninguém que nos oiça!
Rendemo-nos calados, vencidos pela agonia que nos enche o peito!
Destruímo-nos para divertimento dos nossos inimigos!
Se gritarmos, o nosso castigo será pior! Sair um peso de cima para logo em seguida caírem dois mais pesados... o silêncio que nos acuda!

Cessem todos os sofrimentos naquilo que se considera dizer mais do que mil palavras.
E no dia em que o nosso silêncio eterno chegar, não pensem que chegou em vão.


sexta-feira, 26 de abril de 2013

Masoquismo


Não exijo explicação.
Quero apenas dar a conhecer um dos meus vícios, quase letais.


Escondo partes do meu passado numa Caixa de Pandora, que enterro no fundo do meu rio Tejo imaginário.
Assim como o meu passado, numa caixa à parte, guardo o passado daqueles que passaram por mim. E também a desenterro.
Divirto-me a desenterrar as Caixas, uma e outra vez, para me magoar.
Em momentos em que a felicidade é tanta que até me mete medo, abro-a e deixo o seu conteúdo passar-me pelos olhos e pela mente, e mutilar-me, com cortes lentos e profundos.
Equilibro a felicidade com a dor.
E não me caem lágrimas.
Apenas dou berros interiores, que só não se soltam porque o meu auto-controlo é grande para tal.
Não nego que isto é um vício. Descontrolo-me facilmente com a felicidade, tenho que a igualar com a dor, e só assim volto a ser eu.
No fim, fecho as Caixas e volto a enterrá-las. Sinto-me bem. Aliviada.

A dor é o meu ópio.

sábado, 6 de abril de 2013

Because fuck you, pain, that's why!


É da dor e da humilhação que sofri que sou a pessoa que sou hoje.


Vejo coisas que me magoam. Sou algo que magoa.
Para sobreviver, aprendi a não chorar.
Engulo o choro, e se tiver mesmo de ser, que chore enquanto grito.
Berro para libertar mais facilmente. E, no fim, sorrio. Porque já passou.
E liberta tanto, tanto mesmo...
Liberta o que mais há de selvagem em mim.
Mesmo chorando por algo que magoa, sinto vontade de matar. De fazer sofrer. De ver o Mundo ao mesmo nível que eu.
Mas aprendi a fazer de tudo para evitar situações em que chore.
Depois, mesmo vendo coisas que magoem, e apesar de as sentir, passo a ignorar.

Ignoro. Vejo coisas a que antes chorava, agora fico apenas calada e fria.
Vejo os outros sofrer, a sucumbir por não aguentarem aquele momento.
Vejo pessoas a sofrer por minha causa. Novamente fico calada e fria.
Vejo pessoas erguerem-se. Pergunto-me onde arranjam tanta força.
Vejo que se não fosse a dor, não seria nem pensava assim. E há quem tenha o descaramento de me dizer que devia ter vergonha das humilhações que passei. Tenho é vergonha da pessoa que me disse isto, e de a ver respirar o mesmo ar que eu. Odeio-a.


Vejo e sinto muito. E ainda cá estou, com orgulho e a lamentar-me.

Não sei.


Não sei. Nada sei. E é de nada saber que tudo saberei.




Sabes bem dos meus medos, porque tu próprio os tens, embora sejam mais assustadores.
Não quero que fujas. Que o teu passado seja melhor do que o presente (não quero que lá voltes).
Que mostre que não sou quem pensas ver.
Todos temos uma máscara, e é uma questão de tempo até a minha cair e te arrependeres.
Dizes-me que estás aqui, que lutas, que amas, que não largarás.
Eu digo o mesmo. E sinto que o digo com leviandade. Se algo falhar, já saberás que a culpa é minha.

Não sei porque quero ir passo a passo contigo.
Não sei porque tenho cautela.
Não sei porque quero que as coisas andem devagar.
Não sei porquê.
Não sei, não sei, não sei.
Nem quero saber a resposta, mas quero perguntar.



terça-feira, 19 de março de 2013

Adrenalina




O pano cai, o medo vem
O corpo treme e sente o chão
Por tanto quereres o que não tens
A voz é surda atrás da mão.

O corpo treme.
Sucessivas convulsões, não páram, nem eu as quero parar agora.
A adrenalina sobre, e eu já não sou eu; sou algo cheio de vivacidade.

Neste êxtase, sabes o quanto procurei o teu rosto na multidão?
Sabes o quão ousei querer ser mar tão claro como o dos teus olhos?

Tão rápido sonhei como tão rápido acordei.
A queda já não dói. Habituei-me a ela, tornei-me nela.

É por isso que quando encontrei o teu rosto na multidão

e me tornei no mar dos teus olhos

já nada era, nada via, nada sentia sequer.

As convulsões pararam.
Voltei a ser eu.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Amor e Ódio Andam De Mãos Dadas


"Meu Anjo"
Diz-me se ainda existe algo puro em mim
Que tudo isto é melhor que uma ilusão
Que os nossos dias foram mais que um sonho
E se isso ainda te diverte.


Este é o meu Mundo.
E no meu mundo, como em muitos outros mundos, há memórias.
Pequenos filmes; ora guardamos, ora os tentamos eliminar.
Há filmes que, apesar do tempo, são constantemente vistos.
Eu sou a única espectadora da minha memória. E sou a única vítima das emoções por ele causadas.
E há uma que me faz isso.
Odeio-a tanto... e é por isso que a amo.


Tu.
Sim, tu.
Aqui entre nós, explica-me: porque é que parece que te odeio tanto?
E, no entanto, te tenho empatia?
Aponto-te defeitos quando aqui estás (e no entanto dizem que o amor é ver as qualidades...)
Pois só quando estás longe é que te amo.
Porquê?


Sei de muitas raparigas que matavam para ter um rapaz que amasse tão bem como tu.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Regressei.


Finalmente tive coragem.

30 de Setembro parecia ontem. Hoje é 6 de Dezembro.
Uma memória que rói e destrói mas que amo acima de tudo.
Um dia que durante anos nos fora prometido, e finalmente!
Dou graças aos céus e a quem zela por mim.




Nos dias de hoje.
"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades"
Mudo-me a mim, mudo-te a ti.
E quem sou eu e quem és tu agora?
Pois um "amo-te" e tão trivial, que até o "foda-se" é mais sincero.
É por isso que te quero odiar profundamente, quero que me arrebatem de ti.
Sai, porra, fica longe de mim!!

Mas há uma saudade muito estranha que vem se tu fores.




É pouco o que tenho para escrever.
Não sou uma mulher ocupada. Tenho muito tempo até.
Mas estou mole. Já pouco ou mesmo nada me dá prazer...
Nem mesmo um desabafo aqui me ajuda?